
A prótese de quadril é uma das cirurgias com melhores resultados de toda a ortopedia e, ainda assim, é cercada de dúvidas: como é o procedimento, quanto tempo de hospital, quando se volta a andar. No post de hoje, vou acompanhar você pelo caminho inteiro, da indicação até a alta, na ordem em que ele acontece, para que você chegue a essa etapa sabendo o que esperar em cada momento.
A prótese de quadril, cujo nome técnico é artroplastia total do quadril, é indicada quando a articulação está tão comprometida que a dor e a limitação passam a dominar a rotina, e o tratamento conservador, com fisioterapia, medicação e ajustes de atividade, já não dá resposta. A causa mais comum é a artrose avançada, mas a cirurgia também é indicada em casos de necrose da cabeça do fêmur, sequelas de displasia, algumas fraturas do colo do fêmur e doenças inflamatórias.
A decisão é sempre conjunta. Em consulta, eu apresento o que a cirurgia pode oferecer e os riscos envolvidos, e o paciente avalia o quanto a dor está tirando dele. Não existe um número mágico de idade ou um grau de radiografia que defina o momento. O que define é a qualidade de vida.
Definida a cirurgia, começa uma fase de preparo que eu considero tão importante quanto o procedimento. Solicito exames de sangue, avaliação cardiológica e, quando necessário, avaliação de outras especialidades para garantir que o paciente está em condições seguras de ser operado.
Também faço o planejamento da prótese sobre as radiografias, medindo o tamanho e a posição dos componentes. Nos casos operados com auxílio do robô, uma tomografia permite montar um modelo tridimensional do quadril e planejar cada detalhe antes de entrar na sala.
Oriento o paciente a controlar o peso, a parar de fumar, a tratar qualquer foco de infecção, como problemas dentários ou de pele, e a começar a fortalecer a musculatura antes da cirurgia. Quem chega mais forte se recupera mais rápido. Também é o momento de preparar a casa: retirar tapetes soltos, deixar objetos de uso frequente ao alcance e providenciar uma cadeira mais alta para os primeiros dias.
A internação acontece no mesmo dia ou na véspera. A anestesia mais utilizada é a raquianestesia, em que o paciente fica anestesiado da cintura para baixo, associada a uma sedação para que ele durma durante o procedimento. A cirurgia em si dura em torno de uma hora e meia a duas horas.
Durante o procedimento, eu acesso a articulação, retiro a cabeça do fêmur desgastada e preparo o acetábulo, que recebe uma cúpula metálica com um revestimento interno de polietileno ou cerâmica.
No fêmur, é posicionada uma haste, que pode ser fixada com cimento ósseo ou sem cimento, dependendo da qualidade do osso e das características do paciente. Sobre a haste, encaixo a nova cabeça, de cerâmica ou de metal. Ao final, testo a estabilidade e a amplitude de movimento antes de fechar.
O paciente acorda na sala de recuperação e, algumas horas depois, vai para o quarto. O controle da dor é feito com uma combinação de medicamentos que planejamos antes, e hoje conseguimos manter a maioria dos pacientes confortável desde o primeiro dia. Ainda no dia da cirurgia ou na manhã seguinte, o fisioterapeuta ajuda o paciente a sentar e a dar os primeiros passos com andador. Sim, no dia seguinte. Levantar cedo reduz o risco de trombose, acelera a recuperação e devolve a confiança.
A internação costuma durar dois dias, mas é ajustada conforme a evolução, podendo acontecer nas primeiras 24h ou postergada além dos dois previstos. Nesse período, o paciente aprende a caminhar com apoio, a subir e descer um lance de escada, a sentar e levantar da cama de forma segura e a fazer os exercícios que vai repetir em casa. Recebe orientações sobre o curativo, sobre a medicação para prevenir trombose e sobre os movimentos a evitar nas primeiras semanas.
A alta acontece quando o paciente está caminhando com segurança, com a dor controlada por medicação oral e sem sinais de complicação. Ele sai do hospital andando, com andador ou muletas, e com o plano de fisioterapia já definido.
As duas primeiras semanas são de adaptação. A caminhada é curta e com apoio, os exercícios são leves e o foco é cicatrização e controle do inchaço. Entre a terceira e a sexta semana, a maioria dos pacientes abandona as muletas ou andador, passa a caminhar distâncias maiores e retoma atividades leves. Dirigir costuma ser liberado por volta da quarta a sexta semana, dependendo do lado operado e da evolução. O retorno ao trabalho varia entre um e três meses, conforme o tipo de atividade.
Aos três meses, a maior parte dos pacientes está caminhando sem apoio e sem dor. A recuperação completa da força e da confiança acontece ao longo do primeiro ano. E a durabilidade das próteses atuais é motivo de tranquilidade: um estudo publicado no The Lancet em 2026, com quase dois milhões de artroplastias, mostrou que cerca de 92% das próteses modernas continuam funcionando após 30 anos. Para a maioria dos pacientes, a prótese que colocamos é a única que ele vai precisar.
“Vou conseguir voltar a fazer o que eu fazia?” Na maioria das vezes, sim. Caminhar, pedalar, nadar, dançar, viajar, jogar tênis, praticar musculação. Atividades de impacto repetitivo, como corrida de longa distância, merecem uma conversa individual. Tenho pacientes que completaram provas de corrida com prótese. O que eu peço é bom senso, fortalecimento e acompanhamento regular.
Se você está considerando a prótese de quadril, agende uma consulta. Vou avaliar o seu caso, esclarecer todas as dúvidas e montar com você o planejamento da cirurgia.
Ortopedista e especialista em cirurgia do quadril | CRM/RS 27.196 | RQE 17.735
Rua 24 de Outubro, 1440, sala 1004, Independência, Porto Alegre, RS
YouTube: Entendendo Quadril | Instagram: @entendendo_quadril
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