As fraturas do quadril ou do fêmur proximal são consideradas um problema de saúde pública. Esse tipo de fratura ocorre em dois extremos da faixa de idade. O primeiro grupo corresponde aos pacientes jovens que sofrem acidentes com alta energia cinética, como nos acidentes de automóveis ou quedas de grandes alturas. O segundo grupo, que é o que discutiremos de uma maneira mais detalhada, são os pacientes idosos, que sofrem fraturas devido à traumas mínimos, como aqueda da própria altura.

Nos idosos, essas fraturas ocorrem devido à associação da fragilidade óssea (osteoporose), com problemas próprios do envelhecimento, como a perda do equilíbrio, perda da massa muscular, piora dos reflexos e da visão, entre outros.

 

Os dados mais assustadores dessas fraturas são a elevada probabilidade de o paciente vir a falecer durante a internação (risco de 2% até 24%). Após a alta, o risco de morte no primeiro ano pode ser tão elevado quanto 30%.

Como se não bastasse o risco de óbito, muitos pacientes não conseguem voltar para as suas atividades anteriores ou podem tornar-se dependentes.

Todos esses dados nos fazem pensar que a fratura é o grande problema. Isso é uma verdade parcial. O real problema é o estado de saúde prévio à fratura associado com a idade avançada. Sabemos que vamos perder parte da nossa capacidade de reagir às doenças quando envelhecemos e quando sofremos um trauma, embora mínimo, a reação do nosso corpo, muitas vezes, é aquém daquela que precisamos naquele momento.

 

O que fazer se ocorre uma fratura do fêmur em um paciente idoso?

O primeiro passo é solicitar ajuda e levar o paciente para um hospital. As fraturas do fêmur proximal deverão ser tratadas cirurgicamente, independente do paciente ter 70 anos ou 100 anos de idade, exceto se não houver condições clínicas de cirurgia.

Fotografia de um paciente com fratura do fêmur proximal esquerdo. Observa-se o sinal clássico: membro inferior fraturado encurtado e em rotação externa – para fora – (seta vermelha)

A avaliação clínica é fundamenta, mas deve ser realizada de uma maneira muito ágil. O tempo entre a chegada ao hospital e o tratamento cirúrgico é extremamente importante. Operar o mais cedo possível, preferentemente nas primeiras 24h ou 48h (se as condições clínicas e logística permitirem) representa a melhor chance de sucesso.

A demora no tratamento da fratura pode piorar as condições clínicas e mantém o paciente acamado. Isso é quase tudo que queremos evitar. O paciente idoso com fratura deve ser operado para estar fora da cama e receber alta o mais rápido possível.

 

Quais os tipos de cirurgia?

O tipo de cirurgia varia conforme a localização e a conformação da fratura. A fratura do colo do fêmur, pode ser deslocada ou não deslocada. Quando não deslocada, os vasos que levam sangue para a cabeça femoral podem não ter sofrido ruptura. Nessa situação, a fixação com parafusos ou placa resolve a fratura. Quando houve o deslocamento, os vasos sofreram ruptura e a chance da cabeça femoral infartar e sofrer o processo de necrose avascular é elevado. E nessa situação, a artroplastia do quadril é a melhor opção.

As fraturas trocantéricas (inter-trocantéricas ou trans-trocantéricas) ocorrem na chamada linha intertrocantérica e podem exibir as mais diversas conformações. As fraturas mais simples podem ser reduzidas e fixadas com um tipo de placa e parafuso chamada DHS. Fraturas mais complexas dessa região podem necessitar a fixação com colocação de hastes céfalo-medulares. Casos altamente selecionados podem se beneficiam da artroplastia do quadril.

Figura demostrando os tipos de fixação utilizadas nas fraturas do fêmur proximal. A) Fixação com parafusos; B) Fixação com DHS; C) Haste céfalo-medular.

 

Outro tipo de fratura, embora menos frequente, é a subtrocantérica. Esse tipo de fratura poderá ser fixado com diversos tipos de placas ou hastes céfalo-medulares. São fraturas com elevado potencial de complicação pelo risco de não consolidação.

 

Alta hospitalar e reabilitação

Muitas pessoas acreditam que permanecer no hospital pelo maior tempo possível representa segurança e rápida recuperação, mas não é assim. Deve ser lembrado que o hospital é um ambiente muitas vezes necessário, mas com potenciais riscos, como o aumento da chance de infecção por bactérias resistentes, por exemplo.

Pensando na segurança e conforto, precisamos planejar a alta hospitalar logo que ocorre a internação do paciente com fratura. O planejamento familiar é fundamental e deverá ser ágil. Muitas vezes o domicílio necessita passar por adaptações e modificações da rotina do lar podem ser necessárias. Outras vezes, cuidados domiciliares de enfermagem são imprescindíveis.

A reabilitação poderá ser lenta. Ela iniciará no hospital e continuará no domicílio. Devemos nos lembrar que doenças pré-existentes ou complicações clínicas (infecções urinárias, pneumonias, entre outras) poderão atrasar a evolução do paciente.