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Mancar sem sentir dor: quando o jeito de andar denuncia um problema no quadril

Mancar sem sentir dor: homem caminhando com o tronco inclinado observado pela esposa

Mancar sem sentir dor é mais comum do que parece. Com frequência, chegam ao meu consultório pacientes trazidos por alguém da família. A pessoa garante que está tudo bem e que não sente dor nenhuma, mas o filho, a esposa ou um colega de trabalho reparou que ela anda inclinando o corpo para um lado. Muitas vezes esse detalhe é o primeiro sinal de um problema no quadril que ainda está numa fase silenciosa.

Mancar sem sentir dor: homem caminhando com o tronco inclinado observado pela esposa

O quadril sustenta o peso do corpo a cada passo. Quando algo muda na articulação, nos músculos ao redor ou no comprimento das pernas, o cérebro ajusta a marcha automaticamente para compensar. A dor pode levar meses ou anos para aparecer. Neste texto, explico por que é possível mancar sem sentir dor, quais condições costumam estar por trás e em que momento vale procurar uma avaliação.

Por que é possível mancar sem sentir dor

Existem dois grandes tipos de alteração na marcha. O primeiro é a marcha antálgica: a pessoa pisa menos tempo sobre a perna dolorida para fugir da dor. O segundo é a marcha de origem mecânica, quando o corpo muda o jeito de andar por causa de fraqueza muscular, perda de movimento ou diferença no tamanho das pernas.

No segundo caso, é possível mancar sem sentir dor porque a articulação ainda tem cartilagem suficiente para funcionar ou porque o corpo encontrou uma forma eficiente de compensar. Essa compensação tem um custo: sobrecarrega a coluna lombar, o joelho e o quadril do lado oposto.

Os padrões de marcha que mais observo

Marcha de Trendelenburg

O glúteo médio é o músculo que mantém a pelve nivelada quando apoiamos o peso numa perna só. Se ele está fraco, a pelve cai para o lado oposto a cada passo, e a pessoa inclina o tronco sobre o quadril afetado para se equilibrar. Esse balanço lateral é um dos sinais mais característicos de alteração no quadril.

Marcha por diferença no comprimento das pernas

Diferenças pequenas passam despercebidas. A partir de um centímetro e meio, mais ou menos, o corpo começa a compensar: o paciente pisa na ponta do pé do lado mais curto, dobra o joelho do lado mais longo ou desloca a pelve.

Marcha rígida

Quando o quadril perde rotação e flexão, o passo fica mais curto e a pessoa gira a pelve inteira para avançar a perna. Esse padrão é comum nas fases iniciais da artrose.

Neste vídeo, explico como o glúteo médio enfraquecido pode mudar o jeito de andar e causar dor na lateral do quadril:

Condições que podem estar por trás

Displasia do desenvolvimento do quadril

Na displasia, o acetábulo, a parte da bacia que encaixa a cabeça do fêmur, é mais raso que o normal. A articulação trabalha com menos cobertura e se desgasta mais cedo. Em adultos jovens, principalmente mulheres, a alteração na marcha pode surgir anos antes da dor.

Artrose em fase inicial

O desgaste da cartilagem costuma começar com rigidez: dificuldade para calçar meias, cortar as unhas dos pés ou cruzar as pernas. A marcha muda junto, e a dor vem depois.

Sequelas de doenças da infância e da adolescência

A doença de Legg-Calvé-Perthes e a epifisiólise, que é o escorregamento da cabeça do fêmur na adolescência, podem deixar deformidades que alteram o formato da articulação. O adulto às vezes convive com uma marcha diferente a vida inteira sem saber a causa.

Lesões dos tendões glúteos

Tendinopatias e rupturas do glúteo médio, mais frequentes em mulheres acima dos 50 anos, enfraquecem o quadril e produzem a marcha de Trendelenburg, às vezes com pouco desconforto.

Impacto femoroacetabular

Alterações no formato do fêmur ou do acetábulo fazem os ossos se chocarem nos movimentos extremos. Com o tempo, o corpo passa a evitar essas posições, e a amplitude de movimento diminui.

Para quem quiser se aprofundar, a Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS) tem um material sobre displasia do quadril (em inglês).

Sinais que costumam acompanhar a mudança na marcha

Alguns detalhes do dia a dia ajudam a perceber que o quadril precisa de atenção:

  • desgaste desigual na sola dos sapatos;
  • dificuldade para calçar meias ou amarrar o tênis;
  • sensação de que uma perna é mais curta;
  • cansaço precoce em caminhadas longas;
  • estalos ou travamentos na virilha;
  • dor no joelho ou na lombar sem causa aparente.

Mancar sem sentir dor: por que vale investigar antes

Grande parte dos tratamentos que preservam o quadril funciona melhor quando a cartilagem ainda está saudável. Fisioterapia direcionada, correção de desequilíbrios musculares, artroscopia e osteotomias, que são cirurgias para reposicionar o osso, têm resultados melhores nas fases iniciais. Quando o paciente chega só depois que a dor aparece, muitas vezes o desgaste já avançou e as opções ficam mais limitadas.

Além disso, tratar a causa evita que a compensação continue sobrecarregando outras articulações.

Como faço a avaliação

A consulta começa pela história: quando a alteração foi percebida, se existe histórico de problemas no quadril na infância, quais atividades ficaram mais difíceis. No exame físico, observo a marcha, meço o comprimento das pernas, avalio a força dos glúteos com o teste de Trendelenburg e examino a amplitude de movimento do quadril.

A radiografia da bacia costuma ser o primeiro exame e já mostra displasia, artrose e deformidades. Quando preciso de mais detalhes sobre cartilagem, lábio acetabular ou tendões, peço ressonância magnética. Em alguns casos, a tomografia ajuda no planejamento cirúrgico.

Atenção especial com crianças e adolescentes

Criança ou adolescente que começa a mancar merece avaliação rápida, com ou sem dor. Na epifisiólise, é comum o jovem se queixar do joelho, porque a dor do quadril se irradia para essa região. Esse quadro exige tratamento cirúrgico precoce para evitar sequelas permanentes.

Leia também: Dor no quadril: o que a localização da dor revela sobre a causa.

Agende sua avaliação

Se você ou alguém próximo começou a mancar sem sentir dor ou percebeu uma mudança no jeito de andar, vale investigar. Quanto mais cedo a causa é identificada, mais opções de tratamento existem para preservar o quadril. Agende uma consulta com o Dr. Cristiano Diesel e faça uma avaliação completa da sua marcha e da saúde do seu quadril.

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