
Dormir de lado dói
A dor que surge ao deitar sobre um dos lados do corpo, ou que acorda a pessoa quando ela vira na cama, tem um padrão bem característico e aponta para uma região específica do quadril: a lateral, onde os tendões dos músculos glúteos se prendem ao osso. É uma das queixas mais frequentes que atendo e uma das que mais assustam, porque a pessoa imagina que o quadril está desgastado. Na maioria das vezes, não está.
No post de hoje, vou orientar você sobre o que pode estar acontecendo quando dormir de lado dói, como diferenciar esse sintoma de outras dores e como ele é tratado.
Quando você deita sobre um lado, o peso do corpo comprime a parte lateral do quadril contra o colchão. Nessa região fica o trocânter maior, um osso saliente no alto do fêmur que você consegue sentir ao apertar o lado da coxa. Sobre ele passam os tendões dos músculos glúteo médio e glúteo mínimo, e entre o osso e os tendões existe uma pequena bolsa chamada bursa, que serve para reduzir o atrito.
Se essa região estiver inflamada ou sobrecarregada, a compressão direta do colchão dispara a dor. E deitar sobre o lado oposto também pode doer, porque nessa posição a perna de cima cai para a frente e estica justamente os tendões do lado afetado. É por isso que muita gente relata que não consegue dormir sobre nenhum dos dois lados e acaba passando a noite de barriga para cima.
O nome é longo, mas o conceito é simples. A síndrome da dor trocantérica engloba a bursite trocantérica e a tendinopatia do glúteo médio, que quase sempre aparecem juntas. Durante muito tempo se atribuía tudo à bursa, mas hoje sabemos que o tendão do glúteo médio é o protagonista na maior parte dos casos. Ele sofre pequenas lesões por sobrecarga repetida e passa a doer quando é comprimido ou esticado.
Além da dor ao deitar, o quadro costuma incluir dor ao subir e descer escadas, ao levantar de uma cadeira baixa, ao ficar muito tempo em pé e, às vezes, uma sensação de queimação na lateral da coxa. A dor é bem localizada: o paciente aponta com um dedo o ponto exato, e ao apertar ali eu reproduzo a queixa. Esse é um dos sinais que mais me ajudam no exame físico.
Vejo esse quadro com muita frequência em mulheres entre 40 e 65 anos, por características da anatomia da bacia e por alterações hormonais que afetam a qualidade dos tendões. Mas ele também aparece em corredores, em pessoas que aumentaram a carga de exercício de forma rápida, em quem tem uma perna um pouco mais curta que a outra, em quem passa muitas horas sentado e em pacientes com artrose de quadril ou de joelho, que mudam o jeito de andar e sobrecarregam a musculatura lateral.
É aqui que eu, em consulta, preciso separar as causas. A artrose do quadril também pode doer à noite, mas o padrão é diferente: a dor é mais na virilha, mais profunda, e costuma aparecer em qualquer posição, não só ao deitar de lado. A dor vinda da coluna lombar, por sua vez, tende a ser na nádega ou a descer pela parte de trás da perna, e frequentemente vem com formigamento.
Também preciso lembrar da possibilidade de um quadro misto. É comum que uma artrose de quadril inicial provoque, como consequência, uma tendinite lateral. Nesses casos, a pessoa sente as duas dores, e o tratamento precisa contemplar as duas origens. Tratar só o tendão dá alívio parcial e temporário.
O diagnóstico da síndrome da dor trocantérica é clínico, ou seja, é feito em consulta, na conversa e no exame físico. Ainda assim, costumo pedir uma radiografia da bacia para avaliar a articulação e afastar artrose ou alterações ósseas. Quando há dúvida ou quando o tratamento inicial não funcionou, a ressonância magnética mostra o estado dos tendões e da bursa e ajuda a definir a conduta.
A boa notícia é que a grande maioria dos casos melhora sem cirurgia. O tratamento começa com orientações simples que fazem diferença: evitar cruzar as pernas, evitar sentar em cadeiras baixas, dormir com um travesseiro entre os joelhos para não deixar a perna de cima cair e comprimir os tendões, e reduzir temporariamente as atividades que pioram a dor.
O passo seguinte, e o mais importante, é a fisioterapia com foco no fortalecimento dos glúteos. Parece contraditório exercitar um músculo que dói, mas o tendão doente melhora quando recebe carga progressiva e bem orientada. Analgésicos e anti-inflamatórios ajudam nas fases de crise.
Em casos selecionados, uma infiltração na região pode reduzir a dor o suficiente para permitir a reabilitação. A cirurgia é reservada para situações raras, em que há ruptura do tendão ou falha de todo o tratamento conservador.
Dor ao deitar de lado que já dura mais de algumas semanas, que está atrapalhando o sono, que faz mancar ou que apareceu junto com dor na virilha. Dormir mal por causa da dor tem impacto no humor, na disposição e na recuperação do corpo, e tem tratamento.
Se a dor está tirando o seu sono, agende uma consulta. Vamos identificar a causa e montar um plano para você voltar a dormir de lado sem incômodo.
Ortopedista e especialista em cirurgia do quadril | CRM/RS 27.196 | RQE 17.735
Rua 24 de Outubro, 1440, sala 1004, Independência, Porto Alegre, RS
YouTube: Entendendo Quadril | Instagram: @entendendo_quadril
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